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Bombeiros voluntários: organização comunitária para preservação e valorização da vida




A vida é o nosso maior patrimônio. Preservá-la e valorizá-la é compromisso de todos. Os recursos para isso estão em nossas próprias mãos, desde que estejamos conscientes, dispostos e preparados para agir corretamente, no momento oportuno.

Estes são alguns dos pensamentos que norteiam a ação dos bombeiros voluntários. Assim como nos países mais desenvolvidos, no Brasil também existem grupos organizados para prestar socorro nas suas comunidades, independente de qualquer recompensa financeira. São cidadãos que disponibilizam tempo e conhecimento em favor da segurança e bem estar coletivos. 

Interessada em modelos que geram qualidade de vida nas comunidades, a ASP Administradora de Condomínios realizou esta entrevista com João Belém, diretor de segurança operacional da Voluntersul (Bombeiros Voluntários do Rio Grande do Sul).

Repórter – Porque você defende o voluntariado na instituição bombeiros?


João Belém – A atividade de bombeiros é muito onerosa para qualquer nação e por extensão, para o bolso do contribuinte. A opção pelo voluntariado se constitui, portanto, numa escolha inteligente, por parte dos governos, para reduzir custos e oferecer às suas populações um serviço de qualidade e com maiores possibilidades de cobertura. Nos Estados Unidos, Europa e Oceania, 90% das corporações de bombeiros são voluntárias, devidamente apoiadas pelo estado. Só existem bombeiros profissionais nos grandes centros urbanos ou nos lugares considerados de risco permanente.


Repórter – O que motiva as pessoas a se tornarem bombeiros voluntários?


João Belém – A motivação básica é a vontade de prestar um serviço à sua comunidade, diante das carências do Estado. É o espírito comunitário que aflora na sua mais alta expressão. Ou seja, alguns membros se dispõem a arriscar a própria vida pela segurança do conjunto da comunidade.


Repórter – No Brasil existem organizações de bombeiros voluntários no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. São quantas unidades?


João Belém – Por enquanto, lamentavelmente, esta percepção de esforço comunitário no Brasil só existe, de forma efetiva e organizada, nesses dois estados. São aproximadamente 30 unidades em cada um, totalizando 60. Estão presentes em cidades de pequeno e médio porte, onde é desaconselhável o investimento em profissionais, diante do reduzido índice de ocorrências, onerando, sobremaneira o contribuinte. Em Joinvile/SC, porém, temos um caso excepcional: é a única cidade grande no Brasil e no mundo (600 mil habitantes), com um parque industrial complexo, que há 120 anos possui corpo de bombeiros unicamente composto por voluntários. Isto é decorrência da cultura dos imigrantes alemães, que vieram de um país onde existe o maior número de bombeiros voluntários do mundo, aproximadamente um milhão e quinhentos mil.


Repórter – Quem são esses bombeiros?

 

João Belém – Bombeiros voluntários são pessoas que prestam esses serviços de forma gratuita, além de suas atribuições profissionais. No caso de Joinvile, cidade inspiradora dos demais corpos de bombeiros voluntários brasileiros, a entidade funciona com decisivo apoio da comunidade e da associação comercial. O CBVJ foi fundado em 1865, depois de um incêndio que destruiu o armazém de um imigrante alemão. Então eles resolveram se proteger. Nessa mesma época houve, no Chile, um grande incêndio no porto de Valparaíso, que também não tinha proteção nenhuma. Com isso, nasceu naquele país a cultura dos bombeiros voluntários, que hoje são exemplos mundiais de competência e dedicação às suas comunidades.

 

Repórter – O que fazem os bombeiros voluntários?

 

João Belém – Executam todas as atribuições inerentes aos serviços de bombeiros, tais como: prevenção e combate a incêndio, busca, salvamento, atendimento pré-hospitalar e muitas outras, em apoio à defesa civil e à segurança pública. O Bombeiro Voluntário presta um serviço público, por isso, seus equipamentos, treinamentos e exigências são iguais aos de seus companheiros profissionais, sejam eles civis ou militares. A única diferença é que não recebem salários para isso.

 

Repórter – O que está sendo feito para que este modelo se dissemine no Brasil?

 

João Belém – Há um esforço muito grande por parte dos bombeiros voluntários do Rio Grande do Sul (VOLUTERSUL) e da Associação dos Bombeiros Voluntários de Santa Catarina (ABVESC). Estas duas organizações buscam conscientizar governos e comunidades de que esta é uma opção correta, séria e menos onerosa para o contribuinte. É muito importante ressaltar que em nenhum momento os bombeiros voluntários pretendem competir, eliminar ou substituir os bombeiros profissionais. Muito pelo contrário: defendemos o modelo existente nas nações mais civilizadas, reconhecendo a necessidade de bombeiros profissionais nas grandes cidades e nas áreas de maior risco, trabalhando ao lado das corporações voluntárias, ambas sob orientação e fiscalização de uma agencia estatal.

 

Repórter – Que relação você vê entre a organização condominial e o movimento de bombeiros voluntários?

 

João Belém – O condomínio é uma comunidade. Partindo deste raciocínio é fácil compor qualquer coisa que apóie esta comunidade quando necessário. É evidente que um edifício não pode ser comparado com uma pequena cidade. Mas, filosoficamente, a idéia de comunidade é a mesma: cidadãos que se unem para suprir necessidades. Nos edifícios seria importante que um determinado número de residentes tivesse um conhecimento básico sobre os procedimentos iniciais a serem adotados em um caso de emergência. Certamente eles não teriam a finalidade principal de substituir o socorro público. Apenas seriam preparados para suprir a lacuna de tempo até a chegada desse socorro. Com isso pode-se evitar muitas tragédias. 

 

Repórter – Então este modelo é adequado para evitar catástrofes?

 

João Belém – Quando se trabalha com emergência existe uma coisa fundamental chamada ‘tempo de resposta’. Ou seja: a partir do pedido de socorro até a chegada e estabelecimento do material no local do evento, pode existir um lapso de tempo que impossibilita evitar a tragédia. O padrão mundial recomenda que pedidos de emergência sejam atendidos dentro de 3 ou 4 minutos. A partir disso não se pode mais falar de emergência. Ora, para cumprir esse tempo o socorro tem que estar próximo. Aí está a grande diferença do modelo brasileiro para o modelo de outras partes do mundo. Europeus e americanos investem no voluntariado e conseguem implantar postos de atendimento com raios de ação que permitem cumprir essa marca. . São mais racionais e por isso conseguem, com menor custo, proporcionar muito mais segurança.

 

Repórter – Isto sem contar com o espírito de valorização humana que se fortalece no seio da comunidade, não é mesmo?

 

João Belém – É impressionante a evolução do espírito comunitário onde existem essas experiências. Aliás, é justamente esse espírito que assegura o funcionamento do modelo de bombeiros voluntários. Profissionais de diversas origens se unem em torno de um ideal comum e assumem um compromisso de se habilitarem para a execução das tarefas de proteção e salvamento. Por um acaso do destino alguém da sua família um dia poderá depender da minha habilidade para ser salvo e vice-versa. Assim, indiretamente, todos nós nos fiscalizamos. Toda a comunidade tem interesse que o cidadão que é um bombeiro voluntário esteja efetivamente preparado para desempenhar seu papel. É a própria comunidade criando e mantendo seus mecanismos de defesa.

 

Repórter – No Brasil o melhor exemplo é o de Joinvile?

 

João Belém

João Belém – No Brasil, temos Itapetininga-SP, Caçador e Barra Velha, em SC, Nova Prata, Garibaldi, Estância Velha e Canela, no Rio Grande do Sul, entre outros. Mas Joinvile é um exemplo que sempre vale a pena ser citado. Como a cidade cresceu muito, há alguns anos a estação central de bombeiros voluntários ficou distante dos diversos bairros. Com o apoio da associação comercial e industrial as empresas se reuniram com o corpo de bombeiros e concluíram que seria mais eficiente se determinadas empresas assumissem a “primeira resposta” em relação à segurança contra sinistros em sua área de influencia. Hoje a cidade dispõe de 12 estações de bombeiros, cada uma baseada numa empresa que comprou o caminhão, treinou o pessoal e atua como “primeiro socorro” da estação central, até a chegada dos reforços. Quer um modelo mais comunitário que este?

 

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