Brasília, capital do Brasil, é também a capital dos condomínios. Cada vez mais numerosos, crescem em sofisticação, o que requer mão-de-obra qualificada. Considerando o número de condomínios, administradoras, comércio, prestadores de serviços, sindicatos e publicações especializadas, pode-se afirmar que hoje, no Distrito Federal, o setor condominial se encontra bastante desenvolvido.
Com o crescimento numérico e sofisticação dos condomínios cresce também a categoria dos trabalhadores em condomínios, que precisam se qualificar para gerar mais segurança, bem estar e qualidade de vida, a um número cada vez maior de moradores. Para saber das condições de vida e trabalho destes profissionais, entrevistamos Vera Lêda Morais, Presidente do SEICON-DF.
SEICON-DF é o Sindicato dos Empregados em Condomínios Residenciais, Comerciais, Rurais e Mistos, Verticais, Horizontais, de Habitações em Áreas Isoladas e Edifícios do Distrito Federal. Fundado em 1989, como associação, em 1990 passou a ser sindicato.
Repórter – Sendo tão abrangente, o SEICON-DF consegue alcançar toda a categoria dos trabalhadores em condomínios do Distrito Federal? Quantos são aproximadamente?
Vera Lêda – Certamente alcança caso contrário não estaríamos representando esta categoria desde 1989. Hoje temos em torno de 4.200 associados de uma categoria estimada em 13 mil trabalhadores. Este número não é oficial e nem tampouco sabemos se todos estão com carteira assinada. À medida que surgem os casos de transgressão aos direitos trabalhistas, nos empenhamos em denunciá-los aos órgãos competentes e em resolver os problemas da melhor maneira.
Repórter – Quais as principais dificuldades enfrentadas por esses trabalhadores?
Vera Lêda – O maior problema enfrentado pela categoria hoje é a terceirização, que precariza as relações de trabalho entre condôminos, síndicos e trabalhadores em condomínios. Perdem-se direitos trabalhistas e não há regularidade por parte destas empresas terceirizadas. Os condomínios se tornaram presas fáceis para essas empresas que, muitas vezes, não são nem regulamentadas corretamente e acabam fechando as portas, deixando empregados e condomínios no “ora veja”. De modo que esta é a nossa principal problemática e os demais problemas em geral são decorrentes disso.
Repórter – O que existe em Brasília voltado para a formação desses trabalhadores?
Vera Lêda – Nós temos sempre incentivado os nossos trabalhadores a se qualificarem. Através do sindicato implantamos alguns cursos de qualificação profissional que, a partir de 15 inscritos, podem ser realizados em qualquer local de trabalho. Nós levamos os cursos até eles. Sabemos também de empresas particulares que oferecem curso de formação e, mesmo com preços “salgados”, quase fora do alcance da categoria, estimulamos os trabalhadores que se esforcem para fazê-los, para melhor enfrentarem o mercado de trabalho.
Repórter – Qual sua avaliação dos condomínios em Brasília, do ponto de vista do trabalhador? Os condomínios têm dado muito “trabalho” aos trabalhadores?
Vera Lêda – Acho que não sou a pessoa mais indicada para dizer qual é o condomínio modelo ou qual é o condomínio precário. Esta não é bem a nossa praia. Mas, na nossa avaliação, o condomínio modelo é aquele que respeita o trabalhador, seguindo a legislação trabalhista. Há muitos casos de falta de registro em carteira de trabalho, descumprimento da legislação. Cito novamente a terceirização, que precariza as relações de trabalho. Outra abordagem é que Brasília é uma cidade administrativa, com muitos funcionários públicos que são nossos empregadores. A falta de dinheiro para eles vai se refletir na redução de postos de trabalho nos condomínios e acumulo de funções, sem a correspondente elevação salarial. Inclusive temos cláusulas na convenção para proteger os trabalhadores do acúmulo e desvio de função. Estes são os principais problemas que a gente enfrenta no dia-a-dia.
Repórter – Quanto à questão de gênero: existem diferenciais entre trabalhadores homens e trabalhadoras mulheres nas portarias, zeladoria e demais atividades profissionais nos condomínios?
Vera Lêda – Em relação ao cumprimento da legislação e das convenções coletivas, não existe esta diferenciação. O salário para ambos os sexos é o mesmo. Mas a mão-de-obra feminina ainda é escassa. Realizamos anualmente o “Encontro Distrital das Trabalhadoras em Condomínios e Imobiliárias do Distrito Federal” e, felizmente, constatamos que tem aumentado o número de trabalhadoras, a julgar pela participação nos encontros. Está havendo uma boa aceitação do trabalho da mulher no setor condominial.
Repórter – Sabemos que o SEICON-DF tem uma cooperativa habitacional a fim de prover casa própria à categoria. Que outras iniciativas o sindicato tem tomado para melhorar a qualidade de vida dos seus filiados?
Vera Lêda – O SEICON-DF é filiado à CONTRATUH - Confederação Nacional dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade, que estimula a atuação do “sindicato cidadão”. É o sindicato atuando em todos os níveis, não só na reivindicação salarial e trabalhista. Através da nossa cooperativa habitacional participamos de todos os programas de moradia, tanto do GDF quanto do Governo Federal. Saímos na frente e lançamos o programa de empréstimo pessoal para nossos associados. Temos também os cursos de qualificação e um laboratório de informática muito bem equipado. Em parceria com a Igreja Evangélica do Núcleo Bandeirante, ampliamos o laboratório de informática e oferecemos cursos inclusive para adolescentes em situação de risco. Através de telemarketing, procuramos colocação no mercado de trabalho, principalmente para os profissionais que treinamos.
Repórter – Qual é a relação do SEICON-DF com o SINDICONDOMÍNIO (sindicato dos condomínios residenciais do DF), entidade patronal?
Vera Lêda – Toda entidade laboral tem uma entidade patronal correlata. O SEICON/DF tem o SINDICONDOMÍNIO e o SINDICON- DF, que é o sindicato dos condomínios comerciais. Na medida do possível, procuramos ter uma boa relação com os sindicatos patronais, porque a relação capital/trabalho é um tripé: capital, empregado e empregador. Tirada uma das pernas desse tripé, ele vai despencar. Por isso buscamos manter o equilíbrio. As conquistas que obtemos para nossa categoria têm que contar com o aval destas entidades que vão repassando para os síndicos que elas representam. Isso se faz necessário no mercado de trabalho hoje.
Repórter – E com as empresas administradoras de condomínios tem havido alguma proximidade?
Vera Lêda – Nós procuramos contato também com estas administradoras e elas nos têm dado respaldo, principalmente com relação à nossa bolsa de emprego. Temos convênios com algumas destas empresas, já que elas provêem de recursos humanos os condomínios que administram. Esta relação tem sido muito boa e ajuda a gerar empregos.
Repórter – Já houve um encontro entre a senhora e o Osonio Ramos, diretor da ASP Administradora de Condomínios. Que assuntos foram abordados?
Vera Lêda – Fiquei conhecendo o proprietário da ASP e o trabalho que esta empresa desenvolve na área de qualificação profissional. Firmamos um convênio para que a ASP, através do CAPAZ – Curso para Porteiros, Administradores e Zeladores, qualifique nossos associados. Apesar dos preços não serem baixos, sabemos que o curso é de qualidade e melhora muito a “performance” dos trabalhadores. Uma das políticas a serem adotadas, é que o empregador arque com os custos dessa qualificação. A parceria será benéfica para todos, uma vez que valoriza o plano de carreira dos profissionais e amplia, substancialmente, a qualidade e a responsabilidade destes profissionais para com os condomínios onde trabalham. Isto vai se refletir em maior segurança e outros aspectos positivos para o bem estar dos moradores em condomínios.